POR UM PUNHADO DE DÓLARES ESTELARES
Luiz Antônio Scaparo Maciel
Numa
dessas noites quentes que vem fazendo, perdi por completo o
sono. Ainda tentei virar para um lado, para outro, pensar em
assuntos zen, mas não teve jeito. Levantei-me. Fui à
cozinha, beber água. Meu relógio apontava para
as duas da matina. Enchi o copo, deixei escorrer um pouco dela
sobre o meu peito, para refrescar. Minhas cadelas ouviram o
barulho e ficaram choramingando pelo vidro opaco da porta. Pelo
choro, reconheci cada uma. Engraçado. A noite aguça
os sentidos. Por causa do silêncio, mais denso.
Ignorei-as. Subi as escadas que levam ao meu pequeno observatório
astronômico. Chamo-o assim não pelos equipamentos,
pois não tenho sequer uma luneta, mas porque é
o lugar mais alto da casa, e aberto. Dá para ver as estrelas
sem a interferência das luzes da cidade.
O céu estava coberto pela neblina da manhã. Tomou
um colorido esverdeado, acho que por causa das lâmpadas
de mercúrio que iluminam as ruas. Era bonito e tenebroso,
ao mesmo tempo. Tinha alguma semelhança com os cenários
"noir" dos filmes de terror, classe B, da década
de 1950. Um cheiro de mato molhado pelo orvalho recendia da
negra paisagem.
A madrugada estava calma e silenciosa. Olhei para o sul, intrigado
com a fumaça das olarias que grassam por ali. Pensei,
quase que por acaso, na queima indiscriminada da madeira das
nossas já depenadas florestas.
Foi aí que eu vi a primeira daquelas estranhas luzes,
que passaram a dominar a paisagem. Apareceu de repente por entre
o nevoeiro, numa velocidade espantosa, do sul para o norte.
Ato contínuo, virou bruscamente para a esquerda. Tive
plena certeza de que aquele objeto dera seta, antes de virar...
Atrás dele, mais três. A mesma velocidade, o mesmo
trajeto, a mesma maneira de fazer a curva. Parecia perseguição
policial de filme americano. O céu transformara-se nas
ruas de San Francisco, ou da Penha, caso queiram a cena em terras
brasileiras. Não sou bairrista, absolutamente. Ufanista,
então, menos ainda...
Aquelas coisas viajando com tal rapidez, se fossem matéria,
estariam deslocando quantidade imensa de ar, conseqüentemente,
de energia, que seria transformada em som. Mas não se
ouvia nenhum barulho, nada. Elas deslizavam num canudo de vácuo,
criado deliberadamente. Ou só podia ser ilusão
de ótica, aurora boreal, austral, o bat-sinal, os quatro
cavaleiros do Apocalipse, sei lá. Coisa da Terra, ah!
isso não era, não!
Comecei a me divertir, claro. Entravam e saíam do meu
campo de visão com espantoso virtuosismo. Arremetidas,
"loopings", parafusos. Os motoristas eram dos bons.
Onde quer que tenham tirado carta — em aviação
é brevê, porém, quem me garante que eram
objetos aeronáuticos? —, passaram com folga nos
exames. Mas "tirar racha"... no céu?!!! E em
Mococa? Quem aqueles malucos pensavam que eram? Aqui temos severas
leis de trânsito, placas de sinalização
muito bem colocadas, semáforos regulados por computador.
Além de tudo, estavam invadindo o nosso espaço
aéreo. Isso é crime municipal, eu sei, penalizado
com multa de 10.000 dólares estelares, a moeda corrente
neste quadrante do Universo. E apreensão da carteira
de motorista por dois anos-luz. Se tivessem alguma birita espacial
na cabeça, a pena seria acrescida de uma estada no reformatório
para alienígenas por oito meses terrestres, sem direito
a fiança, trabalhos forçados e somente tutu de
feijão à mineira, como alimento. Aquilo tinha
jeito de ser coisa de ET adolescente; talvez os ETzões
nem estivessem sabendo que seus ETzinhos tiravam, furtivamente,
seus esputiniques das garagens.
Mas a rapaziada estava dando um show. O líder, ou o que
valha, imprimia o tom das brincadeiras. Os outros três
eram coadjuvantes do espetáculo. Mesmo assim, davam sua
"palhinha", também.
Acho que duraram bem umas duas horas, as acrobacias. Isto resultou
em enormes mudanças fenomenológicas, por aqui.
O galo do vizinho, que canta uma única vez, à
meia-noite, cantou vinte e três, começando com
as primeiras cento e dezessete notas da música "Capelinha
de Melão" — o que já caracteriza plágio
—, entre duas e meia e cinco da manhã. Um enxame
de marimbondos construiu sua caixa, de quase dois metros de
diâmetro, em menos de dezoito minutos. As luzes das casas
acendiam e apagavam, em código. Minha cadela, a Princesa,
entrou e saiu do cio seis vezes; o guarda noturno não
passou nem uma única vez pela minha rua — o que
não tem nada a ver com a história, pois ele não
passa mesmo, de qualquer forma —; meu relógio de
pulso começou a andar para trás; o relógio
da cozinha, que não anda nem pra frente nem pra trás,
saltou da parede, em suicídio anunciado; meu aparelho
de CD toca, até hoje, ininterruptamente, a abertura do
filme "O Planeta dos Macacos". E não adianta
desligar: ele adotou vida própria!
Para encurtar a história. Apareceu, não sei de
onde, uma luz, semelhante às outras, mas enorme, com
várias pequenas luzes vermelhas e azuis, piscando seqüencialmente.
Os quatro primeiros objetos, ao notar esta magnífica
obra de engenharia intergaláctica, nada parecida com
os que volta e meia visitam a Terra, deram no pé. Sumiram
pelo primeiro buraco que encontraram nas nuvens. Saíram
queimando pneu, pros lados de Arceburgo. Acho que nem pararam
no posto policial.
A luzona cheia de luzinhas ainda permaneceu por mais um tempinho.
Lançou um estranho raio prateado na direção
da casa do meu vizinho. Aí, foi embora, seguindo o mesmo
caminho dos pequenos marginais.
Meu vizinho está em prantos, o coitado. Desconsolado.
O galo dele sumiu. E mais umas três poedeiras, as melhores.
Desapareceram sem deixar uma peninha sequer para possíveis
investigações. Também ninguém veio,
desses órgãos que tratam de assuntos extraterrestres.
Tenho uma teoria: o galo, que nesse momento cantava mais que
o Pavarotti, era o único ser daquelas paragens a dar
o ar de sua graça. Os Ets do foguetão, então,
acharam que a forma mais evoluída do planeta era aquela.
Aí, levaram alguns espécimes para pesquisa.
Mas eu fiquei muito do calado. Não vi nem ouvi nada.
Agora, se esses caras aparecerem novamente, eu anoto a chapa
de seus veículos e abro uma "home-page" na
Internet. Se der, fotografo suas luzes, como essas máquinas
da polícia rodoviária, para flagrar infratores.
Deve ter alguém neste mundão de Deus que também
tenha visto as mesmas coisas. Aí, mandamos estes doidos
para uma colônia penal espacial. Quem sabe, não
dividam conosco aqueles dez mil dólares estelares, como
recompensa. Estou precisando. E depois do que vi fazer aquelas
máquinas maravilhosas, bem que estou a fim de dar uma
"incrementadinha" no meu veículo interestelar...
pra sair um pouco de casa. Já não agüento
mais o CD do "Planeta dos Macacos"...
Agora, a molecada da rua anda cantando: "— A galinha
do vizinho bota um monte de ETzinho".
Juro, que esta não fui eu que soltei...