| BOTÕES E FUNÇÕES
Nossa vida está rodeada por botões. Está comandada por eles. Um botão para cada coisa. O status quo das pessoas está sendo medido pela quantidade de botões que possui. Para o financiamento da casa própria, do carro novo, do leasing do cobiçado Lear Jet (oi, amado Pink Floyd...), a primeira pergunta já não é mais o quanto ganha o gajo. É outra:
—O senhor possui quantos botões?
Já percebeu que os figurões nem usam mais T-Shirts, até para suas caminhadas de emagrecimento? Usam camisas de abotoar. Dá a sensação de ter mais botões que o vizinho da pista de cooper...
É botão pra tudo. E se não é botão, é "button" que, no bom inglês, é botão da mesma forma. É por isso que as pessoas ficam com cara de "bundão", quando ficam ricas e babaqueiam: bunda, no bom inglês, é "butt"... ou seja, uma "short version" (oi, desastrado Luxemburgo...) de "button"... o cara babaqueia quando fica com a cara de seus botões... não vou ficar explicando esta piadinha infame. Para bom entendedor, meio botão basta. Aciona a tevê, o micro, o forno microondas, os neurônios...
Mas isto é apenas o intróito (bacana, esta palavra, não?) de um encontro com um amigo, que relato aqui, agora.
Tocou a campainha, dia desses, um amigo. Veio ver se eu tinha alguma coisa relacionada a carros de bois. A conversa acabou derivando para outros assuntos, pois de carro de bois eu só entendo de seu som, monótono e lamentoso.
Falamos sobre desenhos à mão livre e em CAD, festas a caráter, da vida dos outros. Uma boa conversa.
Por fim, o meu amigo, sem ter mais nada o que dizer — e é nesse ponto que eu mantenho a minha teoria da "abobrinha recheada": quando não se tem nada a fazer ou dizer, as invariáveis abobrinhas aparecem... —, comenta que tem um número que destrava as complicadas (para mim eram, até então) senhas destas empresas de telefonia (ou telefônia????), com o qual podia ouvir a conversa dos outros e, melhor ainda, sem pagar nenhum impulso.
Fiquei intrigado. E curioso. O lado de lá do muro que nos separa do próximo é absolutamente delicioso, quando se o desvenda.
Então, para me mostrar que era verdade, pega um papel com um número imenso escrito e os vai teclando naqueles maravilhosos botões de seu celular, que iriam devassar, para o meu deleite, a vida íntima do meu vizinho. Da minha vizinha, seria melhor.
— Olha, você aperta o botão "função", depois o da estrelinha duas vezes e todos estes números aqui.
Em instantes, ele plugara o seu telefone no de uma mulher que estava falando, pelo jeito, com o amante.
— Olha, eu estou sozinha, agora. Você passa por aqui?
— Agora não dá. Daqui meia hora. Preciso inventar uma desculpa pra sair, pra minha mulher.
— Estou com saudade. Porquê você não apareceu mais?
— Não posso falar, agora. Tem gente perto. Depois eu ligo.
— O que eu faço sozinha, na próxima meia hora?
— Liga a tevê. Tome um banho. Sei lá. Fique cheirosa pra mim.
— Eu te espero. Estou com tesão.
Putz!!!! Eu não acreditei no que ouvi. Pedi pra ele me dar o numerão.
— Você sabe que é proibido, né? disse ele, para meu espanto. Então, por qual razão ele me aguçou a curiosidade?
Estava com um casal de amigos me visitando. Eu os chamei para ouvir aquela maravilha. A mulher do amigo visitante confirmou que aquela senha estava na NET, para todo mundo pegar. E mostrou outro numerão daqueles, só que completamente diferente.
— Para cada tipo de aparelho, tem um. Mas continuava tendo que apertar o botão "função".
— Peguei o meu celular. Não tinha o tal do botão. Tentamos ligar o meu celular na vida privada de um qualquer. Não funcionou, por causa da falta do maldito botão.
— É. Não tem jeito. O teu não dá pra grampear. Mas pode ser que na NET tenha a senha para o tipo do teu celular.
Na NET tem de tudo, não? É só procurar. Tem fórmula para bomba, fotografia de sacanagem, entregador de pizza, de cocaína, aluguel de instrumento musical, de terno para casamento, número para destravar linha telefônica. Será que Deus pode ser contatado a partir da rede? Bem que estamos precisando.
Enfim. Fiquei puto da vida com meu celular. Não tem botão pra entrar na vida dos outros.
Não tinha, pois eu o arrebentei contra o muro da minha vizinha. Neste mundo de grampos, e globalizado, se eu não posso participar da vida do meu próximo, então, não serve.
Segunda-feira eu compro um com o botão "função". Daqueles coloridos, grandões. É só apertar ele e eu vou saber se a minha vizinha está mesmo saindo com o chefe, como dizem as más línguas.
Depois, será a vez de uns políticos que todos conhecemos.
Fim da transmissão. Botão de finalização. |