LÁ NO BAR DO ZÉ...
Era qualquer coisa por volta da meia-noite. Não havia peru, nem vinho, nem ceia, nada. As crianças já estavam dormindo, a mulher tinha ido à Missa do Galo e o marido, atordoado pela cana e pelas cervejas, andava às cegas pela casa, esbarrando nos móveis, maldizendo a sorte, por não ter futebol pra assistir, por estar devendo o mundo e os fundos na farmácia, no açougue e outros mundos e fundos. Resolveu deitar-se. Rolou, babou, xingou, quase caiu da cama.
Zzzzzzzz...
De repente, um barulho no telhado! Passos! Pisadas firmes, pesadas. O homem acordou sobressaltado, porém quieto, prendendo a respiração pra poder escutar melhor. Não sabia se tinha sonhado ou se tinha ouvido mesmo.
- Deve ser ladrão, pensou. Mas o que um ladrão quer na minha casa, pobre, desajustada, de fundo de vila e ainda por cima no meio da noite de Natal?
— Pois vai se dar mal, não tenho dinheiro, não tenho nada. Bom. Pode ser um gato, também... mas que gato mais pesado...e o nosso é manco, ele não anda desse jeito. Passarim não é, cachorro, muito menos. Vai ver, é o pessoal do Imposto de Renda que está me espionando. Ou o dono da farmácia, pra me dar um susto... um marciano, talvez, me oferecendo um terreno de graça na terra dele... se for, eu vou. Ou o sobrinho da minha mulher, mas ele foi com ela pra missa... acho que estou ouvindo coisas... preciso parar com essa bebedeira.
Apurou ainda os ouvidos para ver se ouvia o barulho. Mas o sono veio, novamente, manso, manso... tomou conta dele, levou-o a um paraíso, onde era o senhor dos bichos - no que apostasse, ganhava -; serviam-no com toda a pompa, iguarias deliciosas, sol, mar, a água marulhando, a água, a água...
Blam! Era a mulher que chegava da missa.
— Ô mulher! Você quase me mata de susto! Ainda agorinha ouvi uns barulhos no telhado...
— Vai dormir, homem, ocê tá bêbado, tá imaginando coisas. Devia ter ido ver o padre falar, que gracinha de homem santo que ele é... em vez de ficar bebendo tanto!
E os dois deitados, aí não havia diferenças.
— Ô marido, eu tava chegando aqui em casa e vi um homem todo de vermelho, um sacão no ombro, xingando, falando que neste país não tem chaminés, que ele não consegue entrar, não entendi direito, a conversa dele, não.
— Ei, mulher, vê se dorme. Esse padre fica falando coisas. Vai ver ocê tá achando que viu o Papai Noel. Pois num é, não. Tinha um cara todo de vermelho lá no bar do Zé, se afundando na cachaça. O que ocê ouviu foi papo de bebum.