Crônicas
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O JOGO DO AMENDOIM

É raro, mas aconteceu ontem. Recebi a agradável visita de meu amigo, músico, também, o Tamira. Vieram ele, a Débora e o filhão, Solano. Apareceram para umas cervejas, umas prosas jogadas fora e, como sempre, para as "abobrinhas recheadas", isto é, sempre que nos juntamos, sai alguma tirada picaresca, alguma fofoca, algum comentário mais sacana sobre a vida. Alguma coisa sai.
O Tamira é daquelas figuras que não deixam escapar nada. É antenadão nas sutilezas psicológicas das pessoas. Se ele falou, está certo. Exemplo. Até ontem, eu não sabia que sou sistemático. Agora posso dizer, com o maior orgulho e com toda a certeza do mundo, que sim. O Tamira me disse, logo sou. Entre cervejas, nacos do bom pão do nosso amigo comum, Camargo, pastéis da minha sogra, Dona Célia, e conversas sobre o trabalho musical de um amigo e grande poeta, o Carlão, sobre o novo CD de outro amigo, o Kico Zamarian, a hora passou. Discutimos sobre o rumo da cultura da cidade, sobre nossos projetos musicais, acertamos outras noitadas como esta.
Já não tinha mais muita coisa pra gente comer. Os pastéis se foram. As cebolas curtidas também. O pão recheado, idem. Sobrou um pacote de amendoins, que tratei de salgar e torrá-los. Enquanto isso, abri um tinto. O álcool da cerveja é bom, mas numa noite fria, não há como o de um excelente vinho.
Dali meia hora, Ana, minha mulher, Débora, Tamira e eu já estávamos esmagando aqueles grãozinhos, vermelhos e torrados, com os dentes. Claro, meio alegrões, embalados pelas tantas cervejas e pelo vinho.
É neste momento que nascem as "abobrinhas", não é? Quando não se tem muita coisa a fazer, a gente fica caçando.
Então, o Tamira e eu resolvemos criar o "jogo do amendoim".
É mais ou menos assim:
Pega-se um tantinho deles e coloca na mesa. É. Aleatoriamente.
E começa a jogar. É. Assim mesmo. Pronto. Simples. Sem regras.
Regras pra quê, afinal??? Faz-se qualquer coisa com os grãos. Pode agrupá-los de três em três, acertar um com outro ou mesmo o outro com o um, fazer uma carreirinha, uma cerca, um círculo, triângulos, tentar fazer uma pirâmide, passar por entre os dedos. O que quiser.
Meu filhão, o João, que já está com seis anos — nossa, como o tempo passa —, chega da casa de seu amiguinho e logo entra na brincadeira. Pegou rapidinho, o jeitão da coisa. Criança não tem regras, não tem limites, como diria o Tamira. Para ele, foi fácil entender a idéia. Em pleno frescor de sua criatividade, foi logo inventando outras possibilidades, como regras inexistentes. Viraram lápis de cor imaginários, dinheiro, bichos, alguns viraram até mesmo amendoins... Por fim, completamente à vontade dentro do contexto "nonsense" do jogo, empilhou as várias latas — vazias — de Heineken e tentou derrubá-las com os amendoins, que se transformaram em bolas de parque de diversão. O chão abarrotou-se deles. A situação ficou parecida com aqueles encontros dadaístas do fim da década 10, no meio da primeira guerra mundial, quando a Europa estava de ponta-cabeça e tudo era um caos e um nonsense terríveis. Naqueles encontros, os artistas se obrigavam a regra nenhuma. O fim era criar. Ou destruir.
O jogo do amendoim, assim como os encontros dadaístas e a primeira — a segunda, a terceira... todas — guerra, é brincadeira de criança. Sem regras, sem finalidade, sem propósito. Só o prazer de caçar algo para se fazer quando não se tem nada para fazer. A diferença entre o jogo e as guerras é que os amendoins, se se transformam em morteiros, granadas, aviões e soldados, estes são imaginários.
Resolvemos ensinar o jogo nas escolas. Então, quando os estudantes não tiverem nada para fazer e resolver quebrar lâmpada, matar passarinho, traficar, fazer bomba, ou mesmo quando terminarem o período escolar e não encontrar trabalho — eta política social safada —, irão praticar o jogo do amendoim. Depois, é só comer todos eles.
Pensamos também em ensinar para alguns políticos, mas desistimos. Eles não iriam jogar certo.
Ou, pior, criariam regras.
Ou, pior ainda, roubariam.