ÁGUA E FOGO
Luiz Antônio Scaparo Maciel
Finalmente, entendi o verdadeiro significado de um bom pileque. É, daqueles bacanões, que o caboclo não consegue dar dois passos sem cair.
Tudo aconteceu na minha volta de bicicleta. Peguei a minha excelente magrela, com suspensão, microcomputador, freios a disco, que me leva a qualquer lugar — contanto que eu pedale — e enveredei por uma trilha que há muito tempo não visitava. Fui até à beira do meu grande Rio Pardo. Walkman, três fitas escolhidas a dedo (numa delas, a maravilhosa cantora Cassandra Wilson) e uma vontade danada de tomar banho de rio.
Saí de minha casa por volta de onze e meia da manhã. Solzão estupendo, mas o tempo meio frio, já. Outono, né?
Que coisa mais linda ficar frente a frente com aquele rio que tantas recordações me traz. Boas e ruins. E, no lugar onde fui, já perdi uns quatro amigos. Um quinto, não deixei. Salvei-o, mas isso fica pra outra vez. Só sei que agora tem uma placa proibindo a natação.
De cima da ponte eu vi dois casais lá embaixo, numa praia que se formou (depois, mais tarde, eu vi que alguém "formou", não foi naturalmente...) e que pareciam muito "alegres", principalmente a ala masculina. Uma das meninas, ao ver o seu companheiro entrar na água, começou a gritar e jogar pedrinhas e areia nele. O que não foi um bom sinal. Mas eu não estava lá para policiar ninguém. Contemplando a paisagem estava e contemplando a paisagem continuei.
Fui andar mais. Mais longe, quero dizer. Rumei em direção a Tambaú, cidade vizinha, mas uma floresta fechadíssima me surpreendeu e acabei entrando nela, para ver se eu achava uma onça. Nada. Nem borboleta, eu achei. Como era por volta de uma da tarde, os bichos todos deviam estar almoçando ou tirando uma soneca. Tudo calmo, ninguém enchendo o saco de ninguém.
Muito mais tarde, voltei e fui tomar o meu prometido banho de rio.
Por ali, há uma capela, cujo quintal dá lá na praia, onde os casais estavam. Encontrei os dois rapazes, completamente "mamados", um jogando areia e pedrinhas no outro. Na falta das namoradas, amavam-se, os dois... Quando perceberam minha presença, começaram a confabular num tom que eu ouvia perfeitamente:
— Ih... o cara, meu... ele tá olhando para nós... eu não vou conseguir atravessar a pinguela, não...
O outro:
— Olha lá... a bicicleta do cara é igual à sua... aquela, roxa...lembra????
— É mesmo!!!! Igualzinha!!! Até a cor...
— De quem "cê" comprou ela?
Encanaram na minha "bike". Pode????
— Ih, cara... nós estamos bebuns... as minas foram comprar mais umas cervas pra nós... na cidade... o bar ali está fechado...
Saíram da água e foram para perto da churrasqueira armada. Esperavam as "minas" e as "cervas".
Pulei dentro d´água. Deliciosa. O fundo do rio, de pedregulhos branquinhos, contrastava com infinidade de pequenos peixes que nadavam perto da praia. Umas braçadas até o meio do rio, pra aliviar o calor e a canseira das pedaladas.
Voltei para a praia, vesti-me, calcei os tênis e fui despedir-me dos meninos. Aí veio a explicação...
— Ô meu, "cê" sabe porque eu estou bebum? É para agüentar o companheiro aqui, ó...
E o outro, pra não ficar por baixo...
— E você sabe porque eu estou de fogo? É para agüentar a mim mesmo...
Cassandra Wilson acompanhou-me no restante do trajeto até em casa. Uma única música, linda, que eu voltei umas quinze vezes, pois a melodia e a letra são umas pérolas.
A música? Harvest Moon. Neil Young. Embriagante. Só ela, mesmo, para eu agüentar a viagem de volta...
..."There´s a full moon risin´, let´s go dancin´ in the light
We know where the music´s playin´
Let´s go out and feel the night...
´Cause I´m still in love with you...
...´Cause I´m still in love with you on this harvest moon..."
É...
Acho que precisamos todos de um banho de rio e de um fogo, de vez em quando, para agüentar tantas bombas deste país...
Talvez, também, a voz da Cassandra Wilson e a música do Neil Young...