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A CASA

Parecia que aquela casa fora construída — anos atrás — para que, agora, os dois nunca mais se encontrassem. Ampla o suficiente para se esconderem um do outro, tinha a esquisitice da arquitetura mal entendida e mal empregada. Ao ouvir passos, o outro desaparecia por entre as portas, salas e passagens. O porão se comunicava, estranhamente, com o terceiro piso. O térreo dava de cara com o quarto pavimento e este, por obra da insanidade do projetista, levava — ou trazia — à rua. Mas o porão era o quarto, e o terceiro não tinha nada a ver com o segundo, que nem existia, na verdade.

Tudo isso, certeza, tinha sido de caso pensado. Nem um dos dois queria mais se ver, tantos anos depois. A casa, que não tinha valor de mercado pela doideira construtiva, de aspectos modernosos e sem regularidade de estilo, passou a mostrar-se perfeita, na sua imperfeição. Uma ilha de solidão, um resort de vazios, um jardim das delícias de qualquer eremita.
Certo dia, encontraram-se, os dois. Tendo reatado a puída relação, pegaram-se juntos, num dos cantos da casa.
Um estava no canto do outro. Não sabiam o que fazer! O dono do canto não escondia o nervosismo de estar sendo invadido. A invasora, ansiosa, tentava arrumar desculpa para dar o fora do canto que não era seu.
Não sabiam mais conversar!
Não sabiam mais do que o outro gostava!
Nem se olhar mais, sabiam!
Deu coceira num, enxaqueca no outro...

—Vou ver o Raul Gil, no quarto.
— No quarto andar? Tinha uma tevê em cada canto da casa, caso fosse necessário.
— Não, no quarto, mesmo. Se precisar, grita.
— Tá. Mas não vou precisar, não. Tou indo pro quarto.
— Comigo?
— Não. Quarto andar. Quero achar um livro, deve estar lá.
— Ah...
— Depois, quando achar, vou dar uma saída.
— Nessa chuva? Vai aonde?
— Ué... tá chovendo? Nem vi.
— Também, você tá sempre com as janelas fechadas. Aqui nada acontece! Até o ar aqui é o mesmo de dez dias atrás. Vê se areja o seu canto, amor...
— Vai assistir o Raul Gil, vai...

Outros tantos anos mais tarde, após mais uns três ou quatro encontros fortuitos, resolveram vender a casa para um casal novinho. Mas foram logo avisando, porém, que a casa, como uma roupa que vai se moldando ao corpo e ficando cada vez mais gostosa, também iria se moldando à vida dos dois pombinhos que nem luva.