Rafael Lipi, saudades...
13/02/2005
A gente não escapa de alguns compromissos, não? Mesmo que sejam desconfortáveis, emocionalmente, sombrios, fisicamente, em lugares que não gostaríamos de estar. Já disse que não estarei presente no meu próprio funeral, mas o que dizer do de um aluno, daqueles queridos? Ainda mais de dezenove anos, atleta, jovem, idealista, uma vida dedicada ao judô, à música, aos amigos.
Este era o Rafael Lipi, meu grande amigo, meu orientador sobre música metal, novas tendências, coisa que, absolutamente não me interessava, até ele entrar novamente na minha vida.
Foi assim. Conheci-o, primeiro, na antiga Musiart, escola de arte da Prefeitura, onde ele se inscreveu para as aulas no período da tarde. Lá, apesar de neto do meu grande amigo e músico, Nenê Lipi, ensinei-lhe algumas artimanhas e escalas à flauta doce, algumas pinceladas a guache, e seu espírito inquiridor, dinâmico, misturado a um quezinho de rebeldia, foi adiante. Minhas aulas de sexta-feira eram recheadas de Rafael Lipi, de perguntas incisivas e caras bravas, quando eu tinha de socorrer algum outro aluno que não ele.
Bem. Saí do Departamento de Educação, fui pra outras plagas da Prefeitura, e meu contato com o Rafael espaçou-se. Sumi da vida dele, ele da minha. E foi assim durante bons oito anos. Mas minhas lembranças daquele garoto emburrado, porém amável e carinhoso — tínhamos imenso respeito um para com o outro — permaneceram.
Encontrei-o, finalmente, no Colegial da Fundação, onde fui chamado para ministrar aulas de arte. Então, ali, achei-o mudado, mais maduro, mais forte — sua vida era dedicada ao judô, como disse lá pra cima —, mais carinhoso ainda!
Nossos encontros, uma vez mais, foram recheados de pintura, teatro e, acima de tudo, música. Levei-o a conhecer alguns estilos, algumas tendências, mas isso é o que se espera de um professor.
Confesso, vai. O professor, naquele ano, foi ele. Certo dia, falou-me de seus gostos musicais. Anotou meu e-mail e mais à noite, lotou minha caixa de correio com imagens de suas bandas preferidas: KoRn e Limp Biskuit. Capas dos Cds principais, uma lista das músicas mais importantes. E na outra aula, levou pra sala os tais Cds e reproduziu-os pra todos nós. Eu, que não sabia nadica de nada sobre aquela música, acabei por procurar sites e matérias, só pra gente aprofundar na música daqueles moribundos anos finais da década de 1990. Um ano depois de a gente ter sido tão próximo, presenteei-o com um pedal para guitarra, meu xodó, de quem jurara nunca separar-me, um overdrive da BOSS, daqueles antigões, amarelos, que tantos alunos queriam ter. Dei-o, entretanto, para quem o merecia, mais que eu mesmo.
Hoje, quem está triste sou eu. Triste com os desmandos da vida, rebelde contra o que a gente nunca se acostuma, que é perder um amigo, um ente que a gente ama.
O Rafael é um destes seres. Ficarão, na minha memória, as nossas aulas, as suas sugestões musicais, o seu amor pelo judô, o esporte que acho mais plástico, mais bonito.
Nunca fotografei o Rafael num combate. Esta é a minha mágoa. Apenas me lembro de recebê-lo no colegial com pulsos e bíceps inchados, abdômen definido, forte como um touro. Sempre com aquela carinha de adorável rebelde.
Pena pra todos nós. Soube hoje que ele conseguira quimonos para um tantão de meninos carentes, em Londrina. Mais uma revelação, desta alma boa e generosa.
Agora, perdeu sua última batalha no mais injusto, infame e imoral dojô que um dia pisou: uma via pública brasileira. Aqui, quem chega aos cinqüenta devia ser medalhado como herói.
Às nove e vinte da manhã, seu corpo, envolto pelo quimono azul, que lhe serviu de última roupa física, foi sepultado. Azul como o céu deste dia triste, sem nuvens, onde boiava uma pipa, que subia e descia sob os comandos enérgicos d´alguma criança, invisível, para nós, ali em volta da sua tumba. Parecia o Rafael, ora beijando a terra, ora beijando o céu. Parecia que não queria nem uma coisa, nem outra. Parecia que ainda estávamos conversando sobre música.
Meu amigo Rafael. A você dedico uma linha de um dos mais belos poemas que já li. O autor? Hermann Hesse, de quem a gente só conhece literatura, tipo romance. É, a gente nunca conhece tudo, não é verdade?
“... cai do remo a última gota de mágoa da terra.”
Meu beijo, eterno amigo.
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