Voltar - Página de Ideias

Com novas aquisições e espaços reformulados, a Casa da Cultura Rogério Cardoso recebeu, nesta quinta-feira, dia 14 de abril, uma importante exposição do artista primitivista Nerival Rodrigues. O Departamento de Cultura e Turismo (o atual diretor é Luiz Armando Calió) da Prefeitura Municipal de Mococa tem sido um atuante e dinâmico nesta administração, e a Casa da Cultura, cuja curadora coordenadora é Heloisa de Abreu Meirelles tornou-se o pólo das exposições e eventos culturais, depois que os Museus de Artes Plásticas e o Sacro foram desativados.

Aquisições recentes, doadas pelos próprios artistas:
Maria Bonomi - escultura
Adélio Sarro - pintura
Nerival Rodrigues - pintura

 

Veja Fotos (54)

SENSIBILIDADE À FLOR DA PELE

Primeiro, ele faz o céu; depois, a terra; seus sulcos, as árvores, os frutos e, finalmente, os homens e mulheres que colhem aquilo que a natureza produz. Não se trata de uma parábola da Bíblia, mas da forma como o pintor Nerival Rodrigues realiza suas obras, principalmente plantações de produtos tipicamente nacionais, como café, abacaxi e cana, além de temas folclóricos e urbanos.
Nascido em Garanhuns, PE, em 1952, Rodrigues trabalhou na lavoura até os 16 anos e, desde os nove, na hora do almoço, embaixo de uma árvore, rabiscava com gravetos a terra que ajudava a sulcar. Mais tarde, passou essas imagens e experiências de infância para seus quadros.
No início dos anos 1960, emigrou, num pau-de-arara, para São Paulo, passando por diversas cidades do interior. Nesse período, a vocação de Rodrigues para o desenho foi se expandindo com uso de carvão e com caricaturas e o conhecimento de técnicas como guache e aquarela.
Em 1968, ao ver a destruição do bosque do Parque D. Pedro, Rodrigues pintou seu primeiro quadro a óleo. Recebeu os primeiros elogios e continuou suas pesquisas estéticas. Foi graças ao grande amigo e intelectual Hélio Ribeiro, que deu os primeiros passos para expor, em 1973, na Praça do República, onde ficou durante dois anos.
Entre 1971 e 1982, trabalhou como contínuo da IBM do Brasil, operador de limpeza de máquinas da NSK do Brasil e operador de draga da Companhia Suzano de Papel, abandonando este último emprego para se dedicar totalmente à sua arte. Mesmo quando enfrentou períodos de desemprego, não esmoreceu e trabalhou até como pedreiro, erguendo casas populares em Itaquera e Suzano e se orgulha de saber construí-las desde as fundações até o acabamento.
Embora tenha estudado apenas até o segundo ano do ensino médio, o artista pernambucano nunca parou de experimentar. Na década de 1990, teve sua maior conquista internacional até hoje. Após desenvolver diversos contatos, pintou, em 1995, o mural A liberdade questionada para o Centro de Estudos Gerais da Universidade Nacional de Costa Rica, fundada por intelectuais do porte de Paulo Freire e Darcy Ribeiro.
As cores vivas e a preservação da natureza são as marcas registradas de Nerival Rodrigues. O artista conserva nas mãos os calos de sua origem como trabalhador agrícola e pinta, em seus paraísos sertanejos, festas na roça, cenas caipiras e de colheita, uma visão paradisíaca do Brasil que todos gostaríamos de ver: frondoso, verdejante, rumo ao futuro que nos é constantemente negado.
Naïf nesse amor à natureza e às suas raízes populares e autodidatismo, Rodrigues mescla em suas obras simplicidade, modéstia e vibração. Ao ver como o artista pernambucano constrói seus quadros, fica evidente a sua visão de mundo. A força vital de sua arte brota da terra. A partir dela, consegue compreender o mundo e a multiplicação da vida. Os frutos que o solo oferece são a maior dádiva da arte, dom que não se ensina.
A arte viçosa, forte e alegre de Nerival Rodrigues surge espontânea, pois é desenvolvida com técnica aprimorada numa fusão entre talento, oriundo não se sabe de que segredos divinos, e a técnica aprendida com muita observação e autodidatismo. O resultado é um intenso diálogo entre o fazer e o pensar, num equilíbrio raro entre discussão racional do significado da arte e sensibilidade à flor da pele.

Veja Fotos (54)